sábado, 5 de setembro de 2026

Estão Querendo Apagar a Ancestralidade e Herança Africana da Capoeira


                             Jogar capoeira ou Danse de la guerre, de John Moritz Rugendas, de 1835.



Aos/as colegas mestres/as de capoeira. 

Prezados/as mestres/as, 

Ontem fui surpreendido com uma mensagem me perguntando sobre a capoeira. 

Um/Uma amigo/a professor/a me enviou uma mensagem perguntando se a capoeira era de matriz africana. Fiquei surpreso com a indagação, porque se trata de um/a amigo/a que é do movimento negro e que atua defendendo e buscando aplicações para a Lei 10.639/2003 nas escolas onde atua. 

Ao indagá-lo/a sobre sua pergunta, ele/a me reportou que a pergunta que me fez foi por ocasião de um acontecimento em sua escola: um/uma responsável de um/uma dos/das aluno/a da escola falou sobre a possibilidade de apresentação de capoeira na mesma. Ao conversarem sobre a apresentação o/a referido/a professor/a, falou que seria interessante, pois se tratava de uma manifestação de matriz africana.

O/A responsável em questão não concordou com o que o/a professor/a falou; ele/ela falou algumas coisas, negando ser a capoeira uma herança ancestral africana surgida no Brasil. Em resumo, essa pessoa disse que a capoeira e seus instrumentos não eram de matriz africana.

Diante da pergunta e de sua razão, expliquei ao/à referido/a professor/a por que a capoeira é de matriz africana e por que existem capoeiristas que buscam negar essa herança e ancestralidade.

Assim, diante do ocorrido e da onda de negacionismo, apropriação e deturpação que a capoeira vem sofrendo nesses últimos anos, peço aos/as colegas que não sejam levados por essa onda e não neguem essa condição da capoeira. É necessário que nós, mestres/as, sejamos pessoas que busquem transmitir o que é certo aos alunos e alunas.

Todos/as nós sabemos que a capoeira foi criada no Brasil por africanos e africanas e que a capoeira é uma mistura de várias manifestações do continente africano, assim como o candomblé, o coco, a ciranda, o tambor de crioula, o jongo, o marabaixo, o samba, o frevo e as inúmeras manifestações culturais afrodescendentes ocorridas no Brasil. 

Além disso, devemos ao povo africano, que aqui foi escravizado, torturado, molestado, assassinado, estigmatizado e vítima dos mais absurdos crimes praticados pelos senhores do Brasil colonial, nossa cultura, nossa língua, nossa culinária, enfim, nosso jeito de ser. 

Convido os/as nobres colegas a procurarem fontes de estudo na capoeira para não cairmos nesse equívoco acima descrito. Mas que pode ser, também, algo intencional, dado o contexto no qual o Brasil hoje vive.

Também os/as convido a voltarem ao início do texto, observarem a imagem ilustrativa e se perguntarem: a capoeira é o não de matriz africana? 

Asé!

Mestre Orismidio Duarte - Caboré. 
Projeto Escola de Capoeiras - Estudos e Práticas de Capoeira Angola
Terreiro Capoeira Cariri